terça-feira, 30 de setembro de 2014

Se não há confiança, não há amor?


O mito de Eros e Psiquê nos relata que a jovem não podia ver o rosto de seu marido e, apesar de viver bem com ele e amá-lo, ao ser instigada por suas irmãs (que a invejavam), deixa uma lamparina escondida e uma faca afiada debaixo do travesseiro para cravar no peito do marido caso, ao iluminar seu rosto enquanto ele dormia, averiguasse ser um monstro (porque o oráculo havia profetizado de que ela se casaria com um monstro e suas irmãs fizeram-na acreditar que o marido não a deixava ver seu rosto porque se tratava do monstro). Quando Psiquê aproximou a lamparina, percebeu que se tratava de Eros, um dos deuses mais belos. Contudo, uma gota de óleo caiu e feriu o ombro dele, despertando-o do sono. É neste momento, então, que Eros diz a ela: “Amor e desconfiança não podem conviver sob o mesmo teto”.

Meus queridos, quantas vezes acreditamos que apenas na nossa relação é que sofremos por causa de desconfiança! Quantas vezes, julgamos que foram as redes sociais que decretaram a falência das relações confiáveis! Meus amores, este assunto já estava presente na Mitologia! Os contextos sociais mudam, mas há emoções e conflitos que estão presentes e permeiam toda a história da humanidade. Emoções e conflitos próprios da natureza humana e que, portanto, estão no passado, derramam-se no presente e se estenderão pelo futuro!
A discussão é ampla e não conseguiria reduzi-la a um post. Contudo, vale a pena levantar algumas reflexões. Acredito que há desconfianças e desconfianças. É por isso que sempre sou adepto do exercício da análise racional. Sim, estamos falando de emoções e sentimentos, claro que tenho consciência disso! Assim como sei que emoções e sentimentos descontrolados nunca fizeram bem a ninguém. Neste sentido que digo de usar a razão, isto é, apenas para obter o equilíbrio, o controle e, assim, não agir de forma impulsiva. Fica evidente, portanto, que não sou um filósofo que está reduzindo o emocional e sentimental ao campo racional, mas apenas buscando a dosagem de ambos. Dito isto, vamos lá!
A desconfiança sempre nasce a partir de uma dúvida, não é mesmo? Ora, a dúvida não é ruim. Se não fosse a dúvida, a Filosofia não teria surgido! As dúvidas nos tiram do comodismo e fazem com que saiamos das zonas de conforto. Contudo, precisamos duvidar da dúvida (risos). Duvidar da dúvida é colocar a própria dúvida em xeque! É olhar a própria dúvida com senso crítico ou, trocando em miúdos, é olhar com sensatez e prudência a fim de averiguar se não é mera paranoia (fruto de uma insegurança que, por sua vez, desencadeou um ciúme doentio) ou se, ainda, não é fruto de informações trazidas e carregadas de más intenções (não nos esqueçamos que foram as irmãs de Psiquê que instigaram-na a duvidar do marido – pois, na verdade, estavam com muita inveja dela).

Acredito que mesmo havendo amor, pode sim surgir desconfiança. É óbvio que a pessoa amada não quer que sua palavra ou seu sentimento seja colocado em dúvida; a pessoa amada não quer que sua fidelidade seja colocada em xeque. Contudo, há situações que não são meras paranoias, mas sim junções de fatores ou situações que acabaram sendo mal interpretados e despertaram a desconfiança. É por isso que, mais uma vez, faz-se necessária a sensatez, a prudência e, sobretudo, o diálogo, a fim de espantar e clarear situações nebulosas e, com isso, afastar a desconfiança.
Provavelmente, a intenção do mito com a fala de Eros é de querer mostrar que a desconfiança acaba atrapalhando o amor. Uma pessoa não fica com paz interior quando a desconfiança começa a fazer parte da relação. É neste sentido que podemos interpretar a fala de Eros: “Amor e desconfiança não podem conviver sob o mesmo teto”. Portanto, não significa que se a pessoa desconfiou de você é porque não lhe ama! Mas sim que a desconfiança não combina com amor, justamente porque começa a duvidar da nobreza de tal sentimento. São sentimentos contraditórios e que, portanto, estarão em luta. Ora, se estarão em luta teremos os conflitos. Se teremos conflitos, então o bem-estar da relação será comprometido. E a relação é para nos fazer bem e não mal!

Finalizo, então, dizendo que se a desconfiança aparece não é porque não há amor, mas sim porque há situações que a despertaram. Cabe a cada um analisar criteriosamente quais são os fatores que despertaram tal desconfiança, a fim de buscar sua eliminação pois ela não combina com o amor e com uma relação saudável. Pense nisso! Forte abraço: André Massolini